Conceito de economia

Regina Maria Fernandes – Mestre em Ciências Econômicas e Gestora da Inovação do Laboratório IdeaReal ICB-UFMG

O conceito clássico de economia é a alocação de recursos escassos. Mas, o que é a alocação e o que são recursos escassos? Em uma economia em que temos moeda, podemos visualizar isso de forma bem clara: eu tenho uma renda, eu compro coisas, eu pago por lazer, eu faço poupança para gastos futuros. Mas, por mais que queiramos uma poupança de milhares de reais, ou fazer uma viagem dos sonhos para um lugar paradisíaco, a nossa renda (recurso escasso) limita as nossas ações. A decisão, então, passa a ser como combinar preço e quantidade do que queremos dentro da nossa renda. Mas, o que determina esta alocação?  Bem, passando para uma economia sem moeda. Aqui, as pessoas precisam trocar a sua produção pessoal com a produção pessoal de outro. Os pontos são: qual o valor da mercadoria?Quanto vale um vestido em termos de leite? Ou carro em termos de carne?

A solução da questão sobre a alocação é tratada na economia como Teoria da Escolha. Depois de anos de estudos e problemas com a modelagem dos resultados efetivos do mundo real com a teoria, consolidou-se a ideia de que o ser econômico é racional. Não um ser sem sentimento, que faz escolhas apenas baseados em números ou parâmetros concretos, mas um ser que é capaz de buscar informações, observar os sinais do mercado e maximizar o seu ganho, não exatamente financeiro, e desta forma alocar a sua renda pensando não apenas no momento atual, mas no que tem de expectativas do que será o futuro.

Em uma das versões anteriores a esta ideia, o ser humano enquanto agente econômico tomava decisões baseado em suas experiências passadas e, assim, teríamos um atraso constante entre o que era real e o que era esperado como fato. Para exemplificar o que é uma defasagem causada por uso de informações incompletas, neste caso baseado apenas no que já ocorreu, podemos olhar para a modelagem do mercado agrícola. A tomada de decisão sobre o que plantar e quanto plantar para a colheita seguinte se baseiam nos preços atuais do mercado, sem garantia alguma de não haverá uma flutuação no preço ou no consumo à época da colheita.

A Teoria da Economia Comportamental busca estudar os aspectos da escolha que, em um primeiro momento, pode parecer irracional do ponto de vista econômico, ou que possa levar as pessoas a pensarem que o agente tem expectativas adaptativas (estar sempre com suas decisões defasadas, uma vez que se baseia apenas em decisões/informações tomadas no passado).

Como justificar porque alguém compra uma roupa vermelha se poderia comprar a mesma roupa verde mais barata? Na teoria consolidada, a resposta era: ele valoriza mais a cor vermelha. Mas, o que significa valorizar mais, uma vez que estamos em uma economia de moeda? Do ponto de vista financeiro, não há racionalidade na escolha de algo mais caro, sem uma justificativa técnica.

O objetivo principal da Teoria da Economia Comportamental é entender o processo de escolha individual ou de um grupo específico considerando aspectos sócio-ambientais e psicológicos. De um certo ponto de vista, mostrar que precisamos colocar um conteúdo de individualização no mercado atual e nos afastarmos um pouco da cultura de consumo de massa, padronizado e baseado apenas na equação: preço X quantidade como a principal diretriz da escolha.

Do ponto de vista do indivíduo/ pessoa, entender as razões do seu gosto, saber como ele dá valor, não preço, às coisas que fazem diferença na sua vida. Pode lhe permitir conduzir as suas escolhas atuais e futuras de forma a garantir equilíbrio emocional e a avaliação do que precisou abrir mão para ter consigo as coisas que tem. Conseguir entender como o indivíduo é responsável pelas suas escolhas e, desta forma, pelas conseqüências advindas daquelas.

Muitas vezes é difícil explicar ou esclarecer porque uma pessoa tomou uma determinada decisão e não outra. Não é raro que as pessoas mais próximas da gente duvidem das nossas escolhas, o que nos deixa inseguros. O costume é dizer que estamos seguindo o coração ou o instinto. Bem, sim, é exatamente isso, mas ao entendermos como estas variáveis: coração ou instinto podem atuar em um processo de escolha, temos uma segurança maior na decisão e mais harmonia interna e com o ambiente ao nosso redor

Acredito que há dois papeis: o de teoria científica e o de ajudar as pessoas na suas decisões e no seu aprimoramento pessoal. Para o primeiro caso, tem muito a contribuir para integrar os pontos importantes das teorias que trabalham com a racionalidade. Humanizar as modelagens econômicas, incluir parâmetros de medidas de satisfação, felicidade de uma comunidade? Tornar as políticas públicas mais efetivas tanto para o indivíduo, quanto para o coletivo. Há muito a avançar.

Para o indivíduo precisa ser um trabalho conjunto com outras disciplinas como a psicologia e a educação financeira. Conhecer-se, saber o que é verdadeiramente importante para o indivíduo é primordial para estar alinhado com as proposta da teoria e poder usá-la a seu favor no planejamento da suas decisões.

Eu costumo falar muito: não tenho dinheiro para isso ou para aquilo. E, vejo muito as pessoas olharem com olhar torto para mim, porque dizem se ela não tem dinheiro, quem tem? Aqui acho que é a dica principal.

Avalie a sua disponibilidade financeira em três grandes pontos: com dinheiro infinito, o que gostaria de fazer? Depois ordene por grau de importância, satisfação pessoal, alegrar pessoas que você ama. O segundo ponto: avalie a sua condição financeira sobre o que consegue fazer, mesmo que fazendo uma poupança de alguns anos. Centre nestas metas mais próximas e a cada nova conquista, avalie como dar pulos maiores. E, por fim, dê-se ao direito de fazer pequenas loucuras, consumos que para outros podem parecer totalmente irracionais, mas que para você signifique o paraíso naquele momento.